Opinião: 'A época começa. E o exemplo também', por Vítor Santos

Há um momento, todos os anos, em que o desporto de formação recomeça. Reabrem-se portas, enchem-se balneários, reaparecem equipamentos, horários, treinos e jogos. E milhares de crianças voltam a entrar num campo, num pavilhão, numa piscina, numa pista ou num tatami.
Algumas chegam com o sonho de serem campeãs. Outras querem simplesmente estar com os amigos. Muitas nem sequer sabem ainda o que procuram. Mas todas vão aprender alguma coisa. A questão é saber o quê.
Uma nova época não começa apenas com uma inscrição, um calendário ou o primeiro treino. Começa também com os exemplos que os adultos vão dar. E aqui está uma responsabilidade que não podemos continuar a ignorar.
Um clube é muito mais do que o lugar onde se pratica uma modalidade. Em muitas comunidades, é uma das instituições com maior valor social. É espaço de encontro, pertença, integração e aprendizagem. Junta gerações, cria amizades, combate o isolamento e ajuda a formar cidadãos.
E grande parte deste trabalho acontece graças a pessoas que quase nunca aparecem nas fotografias. Dirigentes voluntários que saem do trabalho e vão para o clube. Pessoas que passam horas a tratar de inscrições, equipamentos, transportes, instalações, seguros, calendários e problemas que ninguém vê. Treinadores que dedicam muito mais tempo do que aquele que aparece no horário do treino. Famílias que fazem quilómetros para que os filhos possam praticar uma modalidade.
É um trabalho exigente. Muitas vezes ingrato. Quase sempre feito por paixão. Merece reconhecimento.
Mas merece também uma pergunta: que responsabilidade temos todos quando colocamos uma criança dentro de um clube?
Os pais não precisam de ser treinadores. Não precisam de conhecer táticas, discutir convocatórias ou explicar ao árbitro como deveria ter decidido. Precisam de ser pais. Estar. Apoiar. Incentivar. Acompanhar. E, sobretudo, deixar os filhos desfrutar.
Talvez uma das perguntas mais importantes depois de um jogo não seja «quanto ficou?», mas simplesmente:
«Divertiste-te?»
Porque uma criança que começa a acreditar que o amor dos pais depende do resultado começa, pouco a pouco, a deixar de jogar para si e passa a jogar para corresponder às expectativas dos outros.
E o desporto deixa de ser descoberta para se transformar em obrigação.
É aqui que entram valores que parecem simples, mas que se tornaram extraordinariamente difíceis de praticar: respeito, lealdade e verdade.
Respeitar quando se ganha.
Respeitar quando se perde.
Reconhecer o mérito do adversário.
Aceitar que o árbitro pode errar.
Assumir os próprios erros.
Não procurar sempre um culpado.
Parece básico. E, no entanto, basta olhar para o desporto profissional, particularmente para o futebol, para perceber a dimensão da contradição.
Queremos que as crianças respeitem os árbitros, mas mostramos-lhes adultos a pressioná-los. Queremos que saibam perder, mas ouvimo-los justificar todas as derrotas. Queremos que respeitem o adversário, mas assistimos a treinadores, dirigentes e outros agentes a transformar cada jogo numa batalha verbal. Queremos que sejam leais, mas ensinamo-las, demasiadas vezes, que a verdade é relativa quando está em causa uma vitória.
O desporto profissional, em particular o futebol, tem uma responsabilidade que não pode ser esquecida: é observado por quem ainda está a aprender. Cada declaração, cada gesto, cada conflito e cada exemplo chega às crianças através da televisão, das redes sociais ou das conversas em casa. Não podemos pedir aos jovens aquilo que os adultos não estão dispostos a cumprir.
Esta talvez seja uma das maiores fragilidades do nosso discurso sobre ética no desporto: falamos muito às crianças sobre valores e demasiado pouco aos adultos sobre o exemplo.
Porque as crianças não aprendem ética apenas quando lhes explicamos o que é certo.
Aprendem-na, sobretudo, quando nos veem fazer. Por isso, o início de uma nova época pode ser também um momento para começarmos de novo.
Para os clubes, uma oportunidade de reafirmarem a sua dimensão educativa. Para os treinadores, a consciência de que cada treino é também uma aula de vida. Para os pais, a coragem de apoiar sem pressionar. Para os dirigentes, a responsabilidade de liderar pelo exemplo. E para todos nós, a obrigação de perceber que o resultado de um jogo termina quando o árbitro apita.
A formação de uma criança não. No fim da época, haverá campeões, medalhas, classificações e vencedores.
Mas haverá também crianças que terão aprendido a respeitar, a cooperar, a lidar com a frustração, a reconhecer o mérito dos outros, a ganhar com humildade e a perder com dignidade.
E talvez seja esse o verdadeiro campeonato que todos deveríamos querer ganhar. Porque o maior resultado do desporto não aparece numa tabela classificativa. Fica numa pessoa.

Que seja, para todos, uma excelente época desportiva. Mas, acima de tudo, uma época de que possamos ter orgulho naquilo que ajudámos a formar.
Vitor Santos | Embaixador do PNED
 

Publicado por: Irene Ferreira
2026-08-18 17:13:48

 

 


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Outras Notícias


Saúde e Bem-Estar

PRR financia equipamento hospitalar de substituição e inovação tecnológica na ULS Viseu Dão-Lafões

A Unidade Local de Saúde de Viseu Dão-Lafões (ULSVDL) beneficiou de um financiamento contratado de 4.525.689,26 € do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) para aquisição de equipamento hospitalar. De acordo com a unidade, foram adquiridos 115 equipamentos, distribuídos por 35 processos de aquisição.
O investimento permitiu modernizar e reforçar o parque tecnológico do Bloco Operatório Central e Serviço de Anestesiologia, das Unidades de Cirurgia de Ambulatório de Tondela e Viseu, da Unidade de Reprocessamento de Dispositivos Médicos, bem como de diversos serviços médicos e cirúrgicos, de Anatomia Patológica e Imagiologia.
“Procurou-se responder às situações prioritárias de obsolescência, adequar a dotação de equipamentos às necessidades assistenciais e introduzir soluções tecnologicamente mais avançadas”, refere, acrescentando que “permitem aumentar a precisão diagnóstica e terapêutica, reforçar a segurança dos procedimentos e criar condições para a realização, na ULSVDL, de técnicas diferenciadas até agora inexistentes ou de utilização limitada”. “A modernização tecnológica contribui ainda para aumentar a capacidade de resposta e reduzir a necessidade de referenciação para outras instituições, constituindo também um fator relevante para a motivação, atração e retenção de profissionais”, sublinha.
Entre os equipamentos adquiridos destacam-se o sistema de neuronavegação para utilização pela Neurocirurgia e o sistema de Otorrinolaringologia, que permitem aumentar a precisão e segurança da atividade cirúrgica. Na Pneumologia, a aquisição de equipamento para ecobroncoscopia possibilita a realização de uma nova técnica diagnóstica, particularmente relevante no diagnóstico e estadiamento de tumores pulmonares. Na Urologia, a aquisição do Laser Holmium permite a realização de Enucleação Prostática (HoLEP), introduzindo uma solução avançada e eficaz para o tratamento cirúrgico da Hiperplasia Benigna da Próstata. A Oftalmologia ficou dotada de um novo microscópio operatório e de um biómetro OCT de última geração, que permitem integração digital completa na cirurgia oftalmológica, otimizando os resultados operatórios. A aquisição de um ecógrafo com biomicroscopia ultrassónica e de um sistema de laser SLT é muito relevante para o diagnóstico e tratamento da catarata e do glaucoma, duas das patologias mais prevalentes neste Serviço.
O investimento teve igualmente um impacto “significativo” no Bloco Operatório Central, Unidades de Cirurgia de Ambulatório e Serviço de Anestesiologia, viabilizando a substituição de estações de anestesia, ventiladores e monitores de sinais vitais obsoletos e adequando a dotação de equipamentos às atuais necessidades assistenciais.

Local/Regional

Viseu: parlamentares do PS questionam ministra da Saúde sobre equipamentos e profissionais

Os deputados do Partido Socialista (PS), eleitos por Viseu, questionaram o Governo sobre o estado de vários projetos e respostas de saúde na região, exigindo datas concretas para a entrada em funcionamento de novas valências e respostas claras para a carência de profissionais na Unidade Local de Saúde Viseu Dão-Lafões.
Em causa estão as novas instalações do Departamento de Saúde Mental e Psiquiátrica, o Hospital de Dia Oncológico e o Serviço de Radioterapia.
Armando Mourisco e Elza Pais querem saber em que ponto se encontram as obras e instalações, quando poderão efetivamente entrar em funcionamento e que meios humanos estarão disponíveis para assegurar a prestação de cuidados.
No caso da Saúde Mental, os deputados questionam a Ministra da Saúde sobre as valências que ficarão instaladas nas novas instalações e sobre o número de médicos, enfermeiros, psicólogos, técnicos superiores de saúde, assistentes técnicos e assistentes operacionais previsto.
Na área da Oncologia, exigem igualmente um calendário para a conclusão das obras e para a abertura do Hospital de Dia Oncológico e do Serviço de Radioterapia, questionando o Governo sobre a existência de eventuais constrangimentos técnicos, financeiros ou administrativos que estejam a atrasar os projetos.
Para os deputados, não basta anunciar novas respostas de saúde. É preciso dizer quando estarão disponíveis e garantir que, no dia em que abrirem, existem profissionais para as fazer funcionar em pleno.
Por isso, os deputados querem saber quantos médicos especialistas, enfermeiros, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica e restantes profissionais estão previstos para o Hospital de Dia Oncológico e para a Radioterapia, quantos já estão contratados e qual o calendário para completar as equipas.
A pergunta dirigida à Ministra da Saúde aborda ainda a carência de médicos especialistas na ULS Viseu Dão-Lafões, nomeadamente nas áreas de Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, Reumatologia e Imagiologia/Radiologia.
A situação dos enfermeiros especialistas em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica merece igualmente atenção, pelo que perguntam qual o número de profissionais atualmente ao serviço, o efetivo considerado necessário e a existência de procedimentos específicos de recrutamento.

Local/Regional

Mangualde: regresso do serviço de urgências não está, para já, em cima da mesa (c/ áudio)

O secretário de Estado da Saúde não conseguiu garantir que, no futuro, Mangualde volte a disponibilizar o Serviço de Atendimento Permanente, depois de ter fechado, na altura da pandemia.
Francisco Catalão, em declarações aos jornalistas à margem da inauguração das obras do Centro de Saúde de Mangualde, disse que, no futuro, a intenção passa por concentrar os serviços de urgências. Ainda assim, acrescentou que cabe ao Governo avaliar as necessidades da população, mas que não pode dar falsas expectativas.

Perante a resposta do secretário de Estado da Saúde, o presidente do Município de Mangualde realça que a decisão depende da tutela, mas que é um dos objetivos recuperar o serviço de urgência.

Local/Regional

Mangualde: presidente da Câmara pede mais valências para o centro de saúde requalificado (c/ áudio)

A requalificação da Unidade de Saúde Familiar de Mangualde foi inaugurada, esta quarta-feira (7 de outubro), pelo secretário de Estado da Saúde. Para além da requalificação do edifício, no âmbito do PRR, o Centro de Saúde passa a contar com um serviço de imagiologia renovado, com um gabinete de saúde oral, e cuidados de saúde mental, como deu conta, na cerimónia de inauguração, o presidente do Município de Mangualde, Marco Almeida.
Com a requalificação das instalações, o autarca  espera que a unidade possa vir a ser contemplada com mais valências de proximidade à população do concelho.
Francisco Catalão, o secretário de Estado da Saúde, realçou o que foi feito, desde o sistema de ventilação e climatização, a cobertura do edifício, caixilharia, pavimentos, iluminação LED, equipamento de radiologias, entre outras melhorias.

Na opinião do governante, investir nos cuidados de saúde primários significa investir na base do sistema de saúde e promover a proximidade com as comunidades.
As obras no Centro de Saúde de Mangualde custaram 1,5 milhões de euros. Investimento financiado a cem por cento no âmbito de uma candidatura apresentada pelo município ao Plano de Resiliência e Recuperação (PRR).  

Local/Regional

Cáritas Diocesana inicia novo mandato com Isabel Martins a liderar a instituição

Isabel Martins é a nova presidente da Cáritas Diocesana de Viseu. Os novos Órgãos Sociais  tomaram posse para um mandato de quatro anos (2026 a 2030). A cerimónia foi presidida pelo Bispo de Viseu, D. António Luciano.
Para além de Isabel Martins, como presidente, a nova direção conta ainda com António Andrade, vice-presidente, Meiline Almeida, secretária, Nanja Kroon, tesoureira, e Merciano da Silva Caetano, vogal.
O Conselho Fiscal é composto por Carlos Manuel Monteiro Marques, presidente, Filipe Rodrigues, secretário, e José Baptista, vogal.
Na cerimónia, D. António Luciano começou por agradecer o trabalho desenvolvido pela anterior direção, sublinhando que “a caridade é o grande desafio que temos hoje diante de nós”.
Na intervenção, a nova presidente, Isabel Martins, afirmou que a equipa inicia este mandato com o propósito de trabalhar “com proximidade, diálogo e responsabilidade”. “Contamos com o conhecimento e a participação dos trabalhadores, com a colaboração das comunidades, instituições parceiras e com uma gestão rigorosa e transparente dos recursos”, afirmou.
Isabel Martins sublinhou ainda que a “Cáritas tem como missão tornar visível o amor da Igreja através de gestos concretos de acolhimento, cuidado e solidariedade”, adiantando que no centro dessa missão está “cada pessoa, com a sua dignidade, as suas capacidades e o seu direito de participar na vida da comunidade”.
A nova presidente deixou também uma palavra de agradecimento à direção cessante pelo trabalho desenvolvido e ao Bispo pela confiança depositada na nova equipa.
Entre o trabalho desenvolvido pela anterior direção, destacam-se a mudança das instalações da creche para o Centro Sócio-Pastoral e a requalificação das antigas Moradias Vicentinas, que vão acolher pessoas em situação de vulnerabilidade.

 

Desporto

Natação: Beatriz Cardeal, de Viseu, volta a sagrar-se campeã nacional de Águas Abertas

A nadadora de Viseu, Beatriz Cardeal, renovou o título de campeã nacional de Águas Abertas, ao vencer a última prova do circuito, em Sesimbra. A Travessia da Baía de Sesimbra encerrou, na segunda-feira (5 de outubro), a XIX edição do Circuito Nacional de Águas Abertas. A prova contou com cerca de 700 nadadores de diferentes escalões e confirmou Beatriz Cardeal como a vencedora da temporada. A nadadora viseense chegou a Sesimbra na liderança do ranking, vencendo também a derradeira prova do circuito.
A nadadora que representa o Condeixa Aqua Clube de Coimbra cortou a meta em 30.36,6 minutos, à frente da irmã e colega de equipa Joana Cardeal, segunda com 31.27,3m, enquanto Sara Alves, do Palmela Desporto, completou o pódio com 32.23,9.
Com as contas fechadas depois da 15.ª e última etapa, Beatriz Cardeal sagrou-se vencedora absoluta feminina do Circuito Nacional de Águas Abertas com 262 pontos, à frente da irmã Joana Cardeal, segunda com 233, e Rylie Crous, terceira com 213 pontos.
Ao título nacional, a nadadora viseense junta a conquista do 1º circuito Luso-Galaico de Águas Abertas. Também Joana Cardeal fecha a época de águas abertas com os dois títulos de vice-campeã em ambos os circuitos, o 1º circuito Luso-Galaico e o XIX Circuito Nacional de Águas Abertas.

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