Entre a criatividade humana e a inteligência artificial
Celebrar o Dia Mundial da Música (01 de outubro) é celebrar muito mais do que os sons. É celebrar as pessoas que compõem, interpretam, produzem e dão vida à música. É celebrar os artistas, os compositores e todos aqueles que encontram na arte uma forma de expressar aquilo que, muitas vezes, as palavras não conseguem dizer.
A música nasce da criatividade humana. Nasce de uma experiência, de uma memória, de uma alegria, de uma perda, de um amor, de uma inquietação ou simplesmente de um momento vivido. Uma melodia pode nascer de uma história que alguém carregou durante anos. Uma canção pode guardar uma recordação. Um acorde pode transmitir uma emoção que não conseguimos explicar.
É precisamente aí que reside a verdadeira força da arte: no sentimento e na emoção de quem cria e de quem recebe a obra.
Vivemos, contudo, uma nova realidade. A inteligência artificial entrou na música, na pintura, na escrita, no cinema e em muitas outras áreas da criação. É uma ferramenta poderosa e pode trazer benefícios importantes aos artistas. Pode ajudar a desenvolver ideias, experimentar sonoridades, criar ambientes, organizar informação e ultrapassar algumas limitações técnicas. Para um compositor ou produtor, pode ser mais uma ferramenta de trabalho, tal como um instrumento musical, um computador ou um software de produção.
O problema começa quando a ferramenta deixa de estar ao serviço do artista e passa a substituir o próprio ato de criar.
Uma máquina pode analisar milhares de músicas e identificar padrões. Pode combinar sons, harmonias e ritmos. Pode produzir uma imagem tecnicamente perfeita ou uma composição musical em poucos segundos. Mas será que consegue sentir aquilo que o ser humano sentiu quando criou uma obra?
Pode reproduzir uma lágrima, mas não viveu a dor que a provocou. Pode criar uma canção sobre o amor, mas não amou. Pode produzir música sobre a saudade, mas não conhece a ausência de alguém. Pode imitar a emoção, mas não possui uma história de vida que dê origem a essa emoção.
A arte não é apenas o resultado final. É também o caminho percorrido até chegar a esse resultado.
É o músico que passa horas ao piano à procura de uma melodia. É o compositor que apaga e reescreve uma frase dezenas de vezes. É a voz que treme porque existe sentimento. É o intérprete que coloca na música aquilo que viveu. São os erros, as imperfeições, as dúvidas e até os silêncios que muitas vezes tornam uma obra verdadeiramente humana.
Não devemos ter medo da tecnologia. Devemos, sim, saber utilizá-la com consciência.
A inteligência artificial pode ser uma excelente ferramenta para o artista, mas não devemos permitir que transforme a criatividade numa simples produção automática de conteúdos. Se tudo passar a ser criado de forma instantânea, corremos o risco de perder aquilo que torna a arte única: a identidade, a personalidade, a sensibilidade e a emoção humana.
A música não precisa de ser perfeita para nos tocar. Muitas vezes, é precisamente uma pequena imperfeição que nos aproxima dela. Uma voz cansada, uma nota ligeiramente diferente, uma interpretação inesperada ou uma pausa no momento certo podem transmitir mais verdade do que a perfeição absoluta.
Como pianista, compositor e produtor, acredito que a tecnologia deve caminhar ao lado do artista, e não ocupar o seu lugar. Devemos utilizá-la para abrir novas portas, experimentar novos caminhos e aumentar as nossas possibilidades, mas mantendo sempre o ser humano no centro da criação.
Neste Dia Mundial da Música, devemos lembrar que uma obra de arte não é apenas aquilo que se ouve, vê ou lê. É aquilo que nos faz sentir.
E enquanto houver seres humanos capazes de sentir, sonhar, amar, sofrer, recordar e transformar tudo isso em arte, haverá sempre algo que nenhuma inteligência artificial conseguirá substituir verdadeiramente.
Que a inteligência artificial nos ajude a criar mais. Mas que nunca nos faça esquecer porque criamos.
Porque a tecnologia pode produzir.
Mas é o ser humano que sente. E é desse sentimento que nasce a verdadeira arte.
Por Paulo Lima — Pianista, compositor e produtor de Viseu
Se uma criança vai duas ou três vezes por semana treinar, o verdadeiro impacto pode estar muito para além dos minutos passados dentro do pavilhão, campo, piscina ou pista.
Uma nova época desportiva está a começar. Campos, pavilhões, piscinas e pistas voltam a encher-se de crianças e jovens. E, com eles, regressam os sonhos, as expectativas e, algumas vezes, também a pressão.
Um estudo realizado no âmbito do projeto ATIVA+Saúde, envolvendo 549 crianças dos 9 aos 13 anos, encontrou uma associação entre a prática desportiva fora da escola e hábitos de vida mais saudáveis. Entre os aspetos analisados estão a alimentação, o sono, a atividade física, a utilização de ecrãs e a literacia em saúde.
Os dados são relevantes. Mas, mais do que olhar para o desporto como uma solução automática para todos estes problemas, devemos perceber o que ele pode representar na formação de uma criança.
Porque o desporto não acontece apenas durante o treino ou no momento da competição.
Pode ensinar a criar rotinas, a cuidar do corpo, a respeitar o descanso, a organizar o tempo, a assumir responsabilidades e a relacionar-se com os outros. Pode ensinar a ganhar, mas também — e talvez sobretudo — a perder.
É aqui que devemos colocar uma questão: estamos a formar atletas ou estamos a formar pessoas através do desporto?
A resposta não está apenas nas mãos dos treinadores. Está também nas famílias, nos clubes, nas escolas e em todos os adultos que acompanham uma criança no seu percurso desportivo.
O risco está em transformar cada hábito saudável numa nova obrigação e cada treino numa oportunidade para exigir mais. Uma criança não precisa de ser um atleta perfeito. Precisa de adultos que a ajudem a compreender, progressivamente, como pode cuidar de si e dos outros.
Também por isso, os números que mostram que cerca de quatro em cada dez crianças avaliadas não praticam desporto fora da escola devem merecer a nossa atenção. Antes de perguntarmos qual a modalidade que escolheram, deveríamos perguntar: o que está a impedir tantas crianças de praticar desporto?
Custos? Transportes? Horários? Falta de oferta? Exigência excessiva? Pressão? Falta de motivação?
O direito ao desporto não pode significar apenas garantir que existem clubes. Significa criar condições para que cada criança possa encontrar no desporto um lugar onde queira estar, aprender e crescer.
O marcador é importante. Faz parte da competição. Mas um dia o jogo acaba, o resultado deixa de ter importância e a época termina. Aquilo que fica é o que a criança aprendeu. Talvez esse seja o verdadeiro resultado do desporto de formação. Formar pessoas antes de formar atletas.
Vitor Santos
(Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto)
Fonte: Projeto ATIVA+Saúde — Universidade de Leiria e Oeste, ciTechCare, em parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa e a Câmara Municipal de Leiria.
Dados divulgados pelo Jornal de Leiria, 3 de setembro de 2026.
Há um momento, todos os anos, em que o desporto de formação recomeça. Reabrem-se portas, enchem-se balneários, reaparecem equipamentos, horários, treinos e jogos. E milhares de crianças voltam a entrar num campo, num pavilhão, numa piscina, numa pista ou num tatami.
Algumas chegam com o sonho de serem campeãs. Outras querem simplesmente estar com os amigos. Muitas nem sequer sabem ainda o que procuram. Mas todas vão aprender alguma coisa. A questão é saber o quê.
Uma nova época não começa apenas com uma inscrição, um calendário ou o primeiro treino. Começa também com os exemplos que os adultos vão dar. E aqui está uma responsabilidade que não podemos continuar a ignorar.
Um clube é muito mais do que o lugar onde se pratica uma modalidade. Em muitas comunidades, é uma das instituições com maior valor social. É espaço de encontro, pertença, integração e aprendizagem. Junta gerações, cria amizades, combate o isolamento e ajuda a formar cidadãos.
E grande parte deste trabalho acontece graças a pessoas que quase nunca aparecem nas fotografias. Dirigentes voluntários que saem do trabalho e vão para o clube. Pessoas que passam horas a tratar de inscrições, equipamentos, transportes, instalações, seguros, calendários e problemas que ninguém vê. Treinadores que dedicam muito mais tempo do que aquele que aparece no horário do treino. Famílias que fazem quilómetros para que os filhos possam praticar uma modalidade.
É um trabalho exigente. Muitas vezes ingrato. Quase sempre feito por paixão. Merece reconhecimento.
Mas merece também uma pergunta: que responsabilidade temos todos quando colocamos uma criança dentro de um clube?
Os pais não precisam de ser treinadores. Não precisam de conhecer táticas, discutir convocatórias ou explicar ao árbitro como deveria ter decidido. Precisam de ser pais. Estar. Apoiar. Incentivar. Acompanhar. E, sobretudo, deixar os filhos desfrutar.
Talvez uma das perguntas mais importantes depois de um jogo não seja «quanto ficou?», mas simplesmente:
«Divertiste-te?»
Porque uma criança que começa a acreditar que o amor dos pais depende do resultado começa, pouco a pouco, a deixar de jogar para si e passa a jogar para corresponder às expectativas dos outros.
E o desporto deixa de ser descoberta para se transformar em obrigação.
É aqui que entram valores que parecem simples, mas que se tornaram extraordinariamente difíceis de praticar: respeito, lealdade e verdade.
Respeitar quando se ganha.
Respeitar quando se perde.
Reconhecer o mérito do adversário.
Aceitar que o árbitro pode errar.
Assumir os próprios erros.
Não procurar sempre um culpado.
Parece básico. E, no entanto, basta olhar para o desporto profissional, particularmente para o futebol, para perceber a dimensão da contradição.
Queremos que as crianças respeitem os árbitros, mas mostramos-lhes adultos a pressioná-los. Queremos que saibam perder, mas ouvimo-los justificar todas as derrotas. Queremos que respeitem o adversário, mas assistimos a treinadores, dirigentes e outros agentes a transformar cada jogo numa batalha verbal. Queremos que sejam leais, mas ensinamo-las, demasiadas vezes, que a verdade é relativa quando está em causa uma vitória.
O desporto profissional, em particular o futebol, tem uma responsabilidade que não pode ser esquecida: é observado por quem ainda está a aprender. Cada declaração, cada gesto, cada conflito e cada exemplo chega às crianças através da televisão, das redes sociais ou das conversas em casa. Não podemos pedir aos jovens aquilo que os adultos não estão dispostos a cumprir.
Esta talvez seja uma das maiores fragilidades do nosso discurso sobre ética no desporto: falamos muito às crianças sobre valores e demasiado pouco aos adultos sobre o exemplo.
Porque as crianças não aprendem ética apenas quando lhes explicamos o que é certo.
Aprendem-na, sobretudo, quando nos veem fazer. Por isso, o início de uma nova época pode ser também um momento para começarmos de novo.
Para os clubes, uma oportunidade de reafirmarem a sua dimensão educativa. Para os treinadores, a consciência de que cada treino é também uma aula de vida. Para os pais, a coragem de apoiar sem pressionar. Para os dirigentes, a responsabilidade de liderar pelo exemplo. E para todos nós, a obrigação de perceber que o resultado de um jogo termina quando o árbitro apita.
A formação de uma criança não. No fim da época, haverá campeões, medalhas, classificações e vencedores.
Mas haverá também crianças que terão aprendido a respeitar, a cooperar, a lidar com a frustração, a reconhecer o mérito dos outros, a ganhar com humildade e a perder com dignidade.
E talvez seja esse o verdadeiro campeonato que todos deveríamos querer ganhar. Porque o maior resultado do desporto não aparece numa tabela classificativa. Fica numa pessoa.
Que seja, para todos, uma excelente época desportiva. Mas, acima de tudo, uma época de que possamos ter orgulho naquilo que ajudámos a formar.
Vitor Santos | Embaixador do PNED
Quando falamos do direito das crianças ao desporto, não estamos apenas a falar de atividade física, competição ou rendimento. Estamos a falar de infância. De liberdade. De crescimento. De felicidade.
O desporto deve ser um espaço onde a criança descobre quem é, e não um lugar onde lhe dizem constantemente quem tem de ser.
Hoje, continuamos a assistir a demasiadas infâncias vividas em modo de pressão. Crianças tratadas como projetos de sucesso. Pequenos atletas transformados em miniadultos antes do tempo. Jogos onde o resultado pesa mais do que o sorriso. Bancadas onde se grita mais do que se educa. Ambientes onde a ansiedade dos adultos invade a alegria natural de brincar.
Mas uma criança não nasceu para carregar os sonhos falhados dos adultos. Nasceu para construir os seus próprios sonhos.
Nem todas as crianças querem competir da mesma forma. Nem todas vivem o desporto com a mesma intensidade. E isso não é um problema. É humanidade. Há crianças apaixonadas pela competição, outras pela amizade, outras simplesmente pelo prazer de jogar. O erro está em exigir que todas sintam, reajam e sonhem da mesma maneira.
Educar pelo desporto exige sensibilidade. Exige perceber que formar uma criança é muito mais importante do que formar um campeão.
O verdadeiro sucesso não está apenas nas medalhas, nas convocatórias ou nos contratos futuros. Está na criança que cresce confiante, autónoma, resiliente e feliz. Está na que aprende a respeitar, a cooperar, a lidar com a derrota e a acreditar em si própria.
Também os adultos precisam de reaprender o seu papel. Pais, treinadores e dirigentes não podem viver o desporto infantil como um palco de ego, frustração ou vaidade. A presença dos pais deve ser porto seguro, nunca fonte de medo ou pressão. O treinador deve ensinar muito mais do que tática. Deve ensinar humanidade. E os clubes devem lembrar-se de que trabalham com crianças antes de trabalharem com atletas.
A especialização precoce, a obsessão pelo rendimento e os calendários competitivos desajustados continuam a roubar espontaneidade a muitas infâncias. Há crianças cansadas antes do tempo. Desmotivadas antes de crescer. E algumas abandonam o desporto não porque deixaram de gostar, mas porque deixaram de conseguir respirar dentro dele.
Precisamos de devolver o jogo às crianças.
Precisamos de lhes devolver o direito de errar sem medo.
O direito de brincar sem pressão.
O direito de escolher.
O direito de crescer ao seu ritmo.
O direito de serem apenas crianças.
Porque o desporto só cumpre verdadeiramente a sua missão quando ajuda uma criança a crescer inteira — e não apenas competitiva.
Neste Dia Mundial da Criança, que nunca nos esqueçamos disto: antes de formar atletas, devemos proteger infâncias.
E talvez a maior vitória de todas seja esta:
uma criança continuar a amar o desporto muitos anos depois de o ter conhecido.
Feliz Dia Mundial da Criança
Vitor Santos
Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto
Um dia, os fins de semana intermináveis vão acabar.As botas enlameadas à porta, os despertadores antes do sol nascer, as sandes comidas à pressa no carro e as viagens longas até um campo perdido — tudo isso se tornará, silenciosamente, passado. E, muitas vezes, nem percebemos quando acontece.
Durante anos, os pais vivem ao ritmo dos treinos e dos jogos. A rotina reorganiza-se, os horários ajustam-se, as prioridades mudam. O desporto deixa de ser apenas uma atividade do filho e passa a ser uma dimensão da vida familiar.
Mas, no meio de tudo isto, há uma presença constante que raramente é destacada: a mãe. Ela está na linha lateral desde o primeiro dia. Mesmo quando tinha dúvidas. Mesmo quando o frio, a chuva e as primeiras dificuldades pareciam confirmar todos os seus receios. Está lá quando corre tudo bem — e, sobretudo, quando não corre.
Está no detalhe invisível: na mochila preparada, no lanche improvisado, na garrafa de água que nunca falta. Está no cuidado depois do jogo, na roupa para lavar, na gestão de horários impossíveis. Está na preocupação silenciosa e no apoio constante.
Ser mãe de atleta não é um papel intuitivo. É uma aprendizagem contínua.
Entre a frustração de ver o filho jogar pouco, as dúvidas sobre decisões externas e a vontade de proteger, há um equilíbrio difícil de encontrar. Nem sempre é fácil perceber qual o lugar certo: quando intervir, quando esperar, quando simplesmente estar.
E, no entanto, é precisamente essa presença — consistente, discreta e resiliente — que marca a diferença.
Porque o desporto de formação não é apenas sobre desempenho. É, acima de tudo, sobre crescimento.
A maioria das crianças não seguirá uma carreira desportiva. Mas todas levam consigo aquilo que aprendem: a lidar com o erro, a respeitar os outros, a persistir perante a dificuldade.
E nesse processo, o papel da família é determinante.
As mães, em particular, constroem muito mais do que rotinas. Constroem ambiente. Criam segurança. Sustentam o caminho.
São também elas que, nas bancadas, formam comunidade. Que partilham cobertores nos dias frios e sombra nos dias quentes. Que celebram, que consolam, que apoiam — não só os seus filhos, mas todos.
No fim, o que fica raramente é o resultado. Ficam os abraços no final dos jogos. Os sorrisos sujos de lama. As viagens partilhadas. Os silêncios que dizem tudo. Fica a memória de alguém que esteve sempre lá. Porque, no desporto, os filhos entram em campo.
Mas há mães que nunca saem da linha lateral. E talvez seja precisamente aí que começa o verdadeiro significado de educar um sonho.
Neste Dia da Mãe, celebramos estas mulheres extraordinárias que, com tanto amor e dedicação, ensinam os seus filhos a ser campeões — não apenas no futebol, mas também na vida. São elas os verdadeiros pilares que tornam cada passo mais firme, cada conquista mais significativa.
Obrigado, Mãe! Todos os desportistas guardam bem presente esta gratidão.
Feliz Dia da Mãe.
Vitor Santos
Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto
Assinalam-se dez anos de um dos mais significativos marcos na promoção da ética no desporto português: o Cartão Branco. Criado pelo Plano Nacional de Ética no Desporto (PNED), esta iniciativa afirmou-se, ao longo da última década, como um instrumento pedagógico inovador, capaz de colocar sob os holofotes aquilo que verdadeiramente sustenta o desporto - o respeito, a integridade e o fair play.
Num tempo em que os episódios negativos tendem a dominar o espaço mediático - da violência ao racismo, da corrupção ao “vale tudo” para ganhar - o Cartão Branco surgiu para inverter a lógica. Em vez de punir, distingue. Em vez de amplificar o erro, celebra o exemplo.
“O Cartão Branco é um recurso pedagógico que visa enaltecer condutas eticamente corretas, praticadas por atletas, treinadores, dirigentes, público e outros agentes desportivos.” Ao longo destes dez anos, esta mensagem ganhou força nos relvados, pavilhões e pistas do país, reforçando a ideia de que competir com ética não é apenas possível - é desejável e deve ser reconhecido.
A sua aplicação nos escalões de formação tem tido especial relevância. Ao distinguir comportamentos exemplares entre os mais jovens, o Cartão Branco contribui para o desenvolvimento pessoal e social, ajudando a consolidar competências como a empatia, o respeito pelas regras e pelo adversário, a responsabilidade e o espírito de equipa. Ainda assim, pode - e deve - ser mostrado em qualquer escalão ou categoria, funcionando como referência positiva para todos os envolvidos.
Para o ex-árbitro internacional João Capela, um dos principais promotores da iniciativa, o Cartão Branco “serve como uma forma que o árbitro tem de valorizar aquilo que são os bons comportamentos e os valores positivos do desporto”. Esta valorização pública é, muitas vezes, um motivo de orgulho para quem o recebe e para as famílias que acompanham o seu percurso desportivo.
Dez anos depois, o desafio mantém-se atual: envolver cada vez mais clubes, escolas, associações e famílias na promoção de uma cultura desportiva assente na ética. O desporto continua a ser uma poderosa ferramenta de inclusão e combate às desigualdades sociais, mas também uma escola de valores - não apenas para quem joga, mas para quem treina, dirige, arbitra ou assiste.
Educar para o respeito dentro das quatro linhas é, também, educar quem está na bancada. O Cartão Branco lembra-nos que cada gesto conta e que cada exemplo positivo tem impacto na formação de cidadãos mais conscientes e responsáveis.
Neste décimo aniversário, mais do que celebrar uma década de existência, importa renovar o compromisso: queremos ver mais Cartões Brancos a serem mostrados. Queremos que os comportamentos exemplares tenham a mesma visibilidade que os erros. Queremos que a comunicação social, enquanto veículo de informação rigorosa, seja também palco da divulgação destas boas práticas.
Porque o desporto, na sua essência, é muito mais do que ganhar. É formar. É inspirar. É educar.
Vitor Santos
Embaixador do PNED
A gestão do tempo de jogo, as não convocações e a divisão entre equipas A e B continuam a ser das maiores fontes de conflito no desporto de formação. Pais, treinadores e dirigentes veem-se frequentemente envolvidos em tensões que, demasiadas vezes, acontecem na presença dos jovens atletas. E isso nunca deveria acontecer.
Sabemos que muitos pais não estão preparados para serem pais de atletas. A entrada de uma criança ou jovem no desporto altera rotinas familiares, condiciona fins de semana e impõe uma agenda exigente. Quando a expectativa criada não encontra correspondência no tempo de jogo ou na convocatória, surgem a frustração, a indignação e, muitas vezes, o conflito. Um conflito para o qual ninguém foi verdadeiramente educado. Nem pais, nem clubes.
Sabemos também que muitos treinadores, árbitros e dirigentes estão em processo de formação e aprendizagem. Mas estamos a falar de desporto de iniciação. No máximo, de formação. Não de alta competição, não de carreiras profissionais, não de resultados que justifiquem comportamentos extremos.
A maioria dos conflitos entre pais e treinadores diz respeito precisamente ao tempo de jogo ou à não convocação. Esta é, talvez, uma das situações mais difíceis de gerir para qualquer treinador. Curiosamente, desculpa-se quase tudo ao treinador do clube sénior de Lisboa ou do Porto. Mas quando é com o meu filho de 9 anos, é “o fim do mundo”.
Segue-se o guião conhecido: telefonemas ao presidente, ao coordenador, ao dirigente, ao presidente da câmara… confrontos diretos com o treinador, ameaças verbais e, em alguns casos, agressões físicas. E assim se perde a autoridade do treinador e do clube. Ao mesmo tempo, passa?se a mensagem perigosa de que a agressão é uma resposta aceitável, se não mesmo recomendável, para situações de desagrado: “filho, quando algo não te agrada, parte para a agressão.” A educação que se transmite é esta. E depois estranhamos a violência.
Foi assim que, durante anos, se retirou gradualmente autoridade aos professores nas escolas: pelo confronto constante, pela desvalorização pública, pela ideia de que o adulto responsável está sempre errado e os pais sempre certos. Infalíveis. Mesmo quando erram.
Este é, de longe, o tema sobre o qual mais tenho recebido mensagens de pais, treinadores e dirigentes. Não existe receita mágica. Mas existe algo que precisa de ser dito com clareza: assim, não estamos a formar. Assim, estamos a falhar.
No desporto, as crianças e os jovens estão entregues a adultos responsáveis e devem aprender a lidar com a frustração, a euforia, a espera e o mérito. Devem aprender a distinguir o que é jogo do que é agradar à bancada. O que é incentivo do que é incitação à agressão e à violência.
Passar a culpa para os outros é sempre o caminho mais fácil. “Eu sei tudo.” “Aquele é burro.” “Eu pago para jogares.” Não. Paga-se para praticar desporto, não para garantir minutos de jogo. O dinheiro não compra tudo, muito menos carácter, crescimento e maturidade.
O jogo é a parte visível do processo e aquela a que os pais naturalmente dão maior importância. No entanto, são os treinos que assumem um papel central na formação: são planeados para o grupo, para a evolução individual e para a dinâmica coletiva. É aí que se constrói o jogador e, mais importante ainda, a pessoa.
Os pais devem incentivar os filhos à dedicação, à superação e ao compromisso. Devem conhecer o projeto do clube, os seus valores e os recursos humanos e físicos que oferece, para poderem fazer escolhas conscientes.
Como exigir a um treinador que eduque para o mérito, o respeito e o espírito desportivo, se são os próprios pais os primeiros a desvalorizar esses princípios? Como bem resume Hernâni Carvalho: “Estes pais deixam de ser buscadores de sonhos para serem assassinos de sonhos.”
Comunicar com respeito é sempre a melhor solução. É assim que se constroem contextos saudáveis, atletas equilibrados e, quem sabe, pais de atletas verdadeiramente cinco estrelas.
Vitor Santos
Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto
Falar de desporto escolar é falar muito para além de correr, saltar ou competir. É falar de um espaço onde emergem emoções fortes, rivalidades inesperadas e fragilidades que, demasiadas vezes, replicam o pior do desporto federado. Talvez por isso o desporto escolar seja, paradoxalmente, um dos territórios mais férteis para trabalhar a ética, esse exercício permanente de pensar o que fazemos e por que o fazemos.
A escola enfrenta hoje o desafio de formar cidadãos críticos, capazes de se posicionar num mundo complexo. Integrar a ética no desporto escolar não é, portanto, um "extra" – é uma exigência. Princípios como respeito mútuo, justiça, solidariedade e diálogo não podem ser apenas palavras bonitas em documentos curriculares. Precisam de ser vividos, e o desporto oferece o palco ideal para que esses valores se tornem visíveis, tangíveis e discutíveis.
Basta observar qualquer competição para perceber como o respeito está longe de ser garantido. Muitos professores relatam níveis de agressividade preocupantes, comportamentos desleais e um cenário onde o professor é visto mais como treinador do que como educador. Há quem seja excluído por falta de habilidade, quem seja alvo de alcunhas, quem seja relegado para segundo plano apenas por não corresponder ao "nível" esperado. Cabe ao professor transformar o jogo num espaço onde todos contam, adaptando modalidades, criando oportunidades reais de participação e combatendo práticas de humilhação que, muitas vezes, passam como normais.
A justiça, por sua vez, exige reconhecer que igualdade não é tratar todos da mesma forma, mas considerar as diferenças reais entre os alunos. É no diálogo, tantas vezes esquecido, que se resolvem conflitos, se negocia o que é justo e se constroem regras reconhecidas como legítimas pelos próprios alunos.
E a solidariedade? No desporto escolar ela manifesta-se quando alguém abranda para ajudar um colega, quando uma turma se mobiliza para incluir um aluno com necessidades especiais, quando a vitória deixa de ser a única métrica de sucesso. Por isso, faz sentido discutir propostas como impedir que alunos federados compitam nas mesmas modalidades, permitindo que o desporto escolar seja realmente complementar, abrindo espaço a novas práticas, novas competências e novas atitudes.
Infelizmente, continuam a surgir relatos de competições onde impera a lógica da vitória a qualquer custo, e onde alguns professores, longe de inocentes, reforçam precisamente aquilo que deveriam combater. Para que os alunos sejam capazes de exercer o respeito mútuo, é imprescindível que os professores também o façam, o que exige coerência entre o discurso e a prática cotidiana.
O desporto escolar tem o potencial de ser um dos mais poderosos laboratórios de cidadania da escola. Mas isso só acontece quando se assume que jogar vai muito para além do jogo em si. É conviver, negociar, falhar, reparar e aprender. A ética não se ensina num discurso, pratica-se em cada passe, em cada discussão, em cada gesto. Se a escola quiser realmente educar para a cidadania, o desporto escolar não pode ficar de fora desta missão.
Vitor Santos
Porquê promover a ética e o fair play no desporto?
O desporto é um fenómeno social com uma dimensão fundamental na vida dos cidadãos, nomeadamente na população jovem, pelo envolvimento desportivo e associativo que promove e também pelo desenvolvimento de competências sociais, educativas e comunitárias, de trabalho em equipa e de diálogo entre todos os indivíduos inseridos no contexto desportivo e na comunidade.
A promoção da ética e do fair play no desporto traz diversos benefícios tanto para os indivíduos quanto para a sociedade como um todo. Em primeiro lugar, esses princípios contribuem para o desenvolvimento de carácter e valores positivos nos praticantes, como disciplina, trabalho em equipa, resiliência e respeito. Além disso, eles fomentam a integração social, proporcionando oportunidades de interação entre pessoas de diferentes origens e culturas.
A ética e o fair play também têm um impacto significativo na formação das futuras gerações. Ao serem expostos a uma cultura desportiva baseada na ética, as crianças e os jovens aprendem a importância de agir com honestidade e respeito em todas as áreas das suas vidas. Esses princípios podem ser transferidos para outros contextos, como a educação, o trabalho e as relações pessoais, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e ética.
Os valores são o fundamento da decisão e da ação, ou seja, servem de guia para que o indivíduo possa medir as consequências das suas decisões sobre os outros e sobre a comunidade. Não nascem de geração espontânea, têm de ser trabalhados.
Ao treinador, como figura central do processo desportivo, cabe a responsabilidade de transmitir, aplicar e trabalhar os valores éticos, exercendo uma ação pedagógica, de influência, continuada e persistente, sobre instituições, praticantes, encarregados de educação e adeptos.
Fomentar a ética no desporto, numa sociedade em que a cultura, a educação e o civismo evidenciam lamentáveis lacunas, não é tarefa fácil. Os que acreditam na ética no desporto são poucos e constituem uma espécie em extinção.
Por isso, faz todo o sentido continuar a falar, e cada vez mais, dos valores e da ética no desporto como contributo para a valorização social deste, mas também como suporte decisivo ao desenvolvimento dos praticantes e, por consequência, do desporto nacional. A ética no desporto não é impeditivo para se vencer. É, e será sempre, uma mais-valia para se vencer!
Os dirigentes têm de pautar a sua conduta tendo em consideração primordial os interesses e o serviço em prol da comunidade.
Como se percebe, ainda há muito caminho a percorrer. Deixo-vos um exemplo muito simples: o facto de não haver nos balneários caixotes do lixo diferenciados para separar e descartar corretamente os resíduos, quando em casa e nas escolas as crianças e os jovens já o fazem, é uma prova gritante do muito que temos a fazer para investir na mudança de comportamentos e na promoção dos valores.
Vitor Santos
Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto
Sem ética, o desporto perde o seu propósito e a sua alma. A vitória deixa de ser conquista e passa a ser sobrevivência. A ética não é um acessório moral, é o que confere dignidade ao jogo e ao ser humano que o pratica.
A ética é, e continuará a ser, o alicerce da formação da Pessoa.
Falar de ética é falar de escolhas conscientes. É questionar ações e comportamentos, ponderar intenções e consequências. Não se trata de impor, mas de orientar, de despertar em cada um o sentido de dever que nos aproxima da nossa melhor versão. A ética é discreta: não se vê, não se mede, mas sente-se no gesto justo, na palavra equilibrada, na atitude coerente.
No desporto, é ela que dá sentido ao jogo, à competição e ao esforço. O valor do desporto não está apenas na vitória, mas na forma como ela é alcançada. O desafio ético começa no treino e prolonga-se muito para lá das quatro linhas. Os valores trabalham-se.
Ao longo dos anos de envolvimento com o desporto, percebo que a ética, por mais invocada que seja, continua a ser um terreno frágil. O discurso dos valores convive com a realidade dos interesses, das pressões e dos egoísmos. Há momentos em que apelar à ética parece quase irónico, tal é o contraste com o quotidiano competitivo.
Vivemos tempos em que a busca pelo êxito imediato se sobrepõe à construção do caráter. Doping, manipulação de resultados, violência, assédio, racismo, xenofobia e negócios, que tratam o atleta como mercadoria, são sintomas de uma crise mais profunda: a perda do sentido humano do desporto. Pergunto-me, por vezes, se o desporto de hoje está mais corrompido do que o de outrora, ou apenas mais exposto. Talvez sempre tenha havido abusos, mas agora o erro ganha palco e amplificação. É nesse palco que a ética precisa de reafirmar a sua voz, mesmo quando parece minoritária.
Hoje, o desporto depara-se com novos desafios éticos que vão além das práticas tradicionais: a legitimidade dos eSports enquanto modalidade desportiva, as questões ligadas à identidade de género e a participação de atletas trans. Não chega assumir uma posição simplista de estar "a favor" ou "contra".
O desporto é, por essência, uma criação humana. Não basta o movimento do corpo – é a consciência e o sentido que o tornam verdadeiramente humano. Tal como na vida, também aqui os valores se aprendem: pelo exemplo, pelo diálogo, pela coerência entre o que se diz e o que se faz. Infelizmente, a banalização do "vale tudo" ameaça transformar o desporto num palco onde o fim justifica todos os meios. Mas valerá tudo para vencer? Quando o "vale tudo" se instala, o desporto perde a alma.
Precisamos de uma ética que devolva dignidade ao desporto e o reconcilie com a sua vocação formativa. Precisamos que o desporto permita ao atleta crescer como pessoa, explorando todas as suas capacidades: físicas, cognitivas e humanas.
A ética no desporto não é um acessório moral; é a substância que lhe dá sentido. É ela que protege o corpo e a saúde, que preserva a dignidade e que garante o respeito entre todos os agentes desportivos. Num tempo em que a sociedade vive ao ritmo da pressa e da aparência, é urgente reafirmar a ética como bússola. Relembrar que nem tudo o que é possível deve ser feito e que a vitória mais importante é a que não compromete a integridade.
A ética reclama debate, reflexão e coragem. Há que divulgá‑la por meio de ações de sensibilização. Porque, no fim, a verdadeira vitória não é a que sobe ao pódio – é a que nos permite olhar o outro, e a nós próprios, com dignidade.
Vítor Santos, Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto
Seja qual for o nível de prática desportiva que se considere, podemos verificar que tem grandes semelhanças com o desporto profissional, já que é necessário preparar e organizar o jogo para a competição. Os atletas são a parte mais visível destas atividades, mas existe alguém que assume o papel central em todo o processo: o treinador. Há que perceber o grande impacto que um treinador tem junto dos seus praticantes para entender que a sua valorização tem sido esquecida.
Na sua grande maioria, os treinadores da formação dão mais valor ao facto de estabelecerem uma relação positiva com os seus atletas do que à sua promoção pessoal. Estes treinadores consideram que, mais importante do que vencer, é aquilo que os jovens aprendem na prática desportiva e o prazer que retiram da atividade. Ao terem estas convicções e os comportamentos correspondentes, a sua interação com os atletas vai‑se pautar pelos valores do desporto e o seu trabalho irá contribuir para melhorar significativamente a qualidade de um ambiente desportivo saudável. No entanto, muitos destes treinadores, jovens ainda, enfrentam grandes obstáculos ao tentarem atingir os objetivos a que se propõem. Na origem destes problemas estão a falta de colaboração dos pais, a interferência de dirigentes, pais e adeptos e a dificuldade em conciliar a sua atividade profissional com o tempo de treino. É igualmente verdade que na formação, mas não só, ainda temos muitos treinadores "voluntários".
Infelizmente, há também um outro tipo de treinadores, os que têm comportamentos desviantes e irresponsáveis. Atualmente, seja qual for o nível de competição desportiva, encontramos exemplos de comportamentos desajustados por parte dos adultos, sejam eles agentes desportivos ou espetadores. É geralmente reconhecido que a forma como os adultos participam no desporto deriva da ligação que eles estabeleceram com o desporto durante a sua juventude. Não há grandes dúvidas acerca dos efeitos a longo prazo que a prática desportiva exerce sobre as crianças e jovens.
Se a cultura desportiva em que estes adultos foram formados assenta na obtenção de resultados imediatos, na hostilidade e na intimidação, eles não irão gostar do jogo. Eles não irão sequer perceber os princípios do jogo porque viveram o desporto num contexto de desprezo pela ética e pelo fair-play. Por isso assistimos demasiadas vezes a cenas lamentáveis envolvendo agentes desportivos e adeptos.
Quando escutamos ou lemos notícias sobre certas personagens, devemos lembrar-nos de que eles são o produto do contexto em que foram gerados e que não tiveram, nem quiseram ter, a capacidade para perceber O jogo. Escolheram o caminho mais fácil.
Ao longo do tempo, investiu-se muito pouco ou mesmo nada no comportamento. Porém, os valores do desporto não nascem de geração espontânea. Precisam de ser trabalhados desde a base e em permanência, antes, durante e depois de cada treino e de cada jogo. Não é de certeza o caminho mais fácil, mas é seguramente o mais gratificante.
Vitor Santos, Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto
A tragédia dos incêndios de 2017 marcou uma viragem na gestão do território rural. A partir daí iniciava-se uma reforma na política de prevenção de incêndios florestais que incluía várias medidas, tais como o programa ‘Aldeia Segura, Pessoas Seguras’, a obrigação da limpeza de terrenos privados, o cadastro florestal, a criação de faixas de proteção e a criação de modelos de gestão coletiva do território. Várias destas medidas começaram a avançar, tendo havido uma mudança de orientação na gestão política e técnica dos fogos. Mas a memória da tragédia foi-se esvanecendo e o plano derrapou. O essencial ficou por cumprir. A Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), que coordenava a reforma, lançava um alerta: ‘’sem um novo ímpeto, o país arrisca-se a assistir de novo à destruição de infraestruturas ou a danos nas comunidades urbanas”. Ao cenário de dificuldade na implementação das medidas, juntavam-se outros fatores: as vastas áreas de monocultura intensiva de eucalipto e pinheiro, o crescimento de espécies invasoras, as condições climáticas extremas e o problema do despovoamento. E foi então que, em agosto de 2022, 25% da área total do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) ficou destruída. A Serra voltava a arder como se nada tivesse sido aprendido. Como se o sofrimento de 2017 tivesse sido em vão. Como se os relatórios, os diagnósticos, os planos e as promessas não passassem de palavras ocas. Na sequência destes incêndios, o Governo aprova, em 2024, o ‘’famoso’’ Programa de Revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela (PRPNSE), com uma dotação de 155 milhões de euros. Um plano para promover o desenvolvimento sustentável da região, a recuperação e revitalização do património natural e biodiversidade, a inovação e o investimento para a revitalização económica, combatendo a perda demográfica e tornando o território mais resiliente às alterações climáticas. Mas, uma vez mais, nada passou do papel… e em agosto de 2025, tudo volta a acontecer! O incêndio, que começou no Piódão, em Arganil, e durou 11 dias até ser resolvido, deixou uma ferida aberta na região, atingindo sete concelhos e várias aldeias e áreas protegidas: Açor, Estrela e Gardunha. Foi a maior área ardida de sempre em Portugal, desde que há registo, contabilizando-se cerca de 64 mil hectares, triplicando a média anual nacional. As chamas galgaram montes, vales e rios, e destruíram tudo em redor das aldeias. Vários autarcas denunciaram, publicamente, a falta de bombeiros no terreno, a descoordenação das equipas e a ausência de meios aéreos no combate aos incêndios. As tradicionais festas de verão, um dos momentos altos do ano para estas comunidades, deram lugar ao desalento e ao medo. Foram destruídas casas, animais, explorações agrícolas e agropecuárias, mas também ecossistemas e geossítios, em particular do Geopark Estrela. Pastores, empresários do turismo, autarcas, ONGs e habitantes, falam num prejuízo social, económico e ambiental ainda difícil de estimar. A região do Rio Alvoco, que atravessa várias freguesias dos concelhos de Seia (Alvoco da Serra, Vide) e Oliveira do Hospital (Alvoco das Várzeas e São Sebastião da Feira), foi uma das mais afetadas pelo incêndio. Esta área, conhecida como “o interior do interior”, tem enfrentado desafios extremos: abandono, envelhecimento, ausência de oportunidades, presença de uma monocultura de pinheiro e eucalipto, e, claro, incêndios recorrentes. Apesar disso, é uma região com uma forte identidade comunitária e espírito de união. O Movimento Estrela Viva (MEV) tem realizado nesta zona, ao longo dos anos, várias iniciativas com o apoio da comunidade: ações de reflorestação, de sustentação de solos e de controlo de espécies invasoras. Foi também aqui que nasceu o projeto "Pontes para o Rio Alvoco", que promove o diálogo e a cooperação entre as comunidades e o território. Infelizmente, e mais uma vez, tudo o fogo levou. E por isso hoje, e tal como em 2017, voltamos a erguer a voz, agora mais alto! Estamos cansados! …de assistir à destruição de um território que conhecemos profundamente e que tentámos recuperar, ao longo dos últimos anos, com o esforço de toda uma comunidade unida em torno de uma causa. …de sermos só lembrados nas tragédias e abandonados durante todo o ano. …de décadas de desinvestimento, de políticas erráticas, de promessas por cumprir e de continuarmos a pertencer a um território periférico e descartável. …de sermos apelidados de ‘’comunidades resilientes’’, quando, na verdade, somos é ‘’sobreviventes’’, porque resistir ao abandono, à negligência e à tragédia não é uma opção, mas sim uma imposição pela ausência de políticas públicas eficazes. …de ‘’dar’’ e de pouco ou nada receber, já que o interior é o sustento do litoral com diversos recursos naturais, incluindo minerais, energéticos (água, vento), produtos agrícolas e florestais, que são essenciais para a economia e o desenvolvimento do país. Por isso mesmo, não podemos continuar a viver entre cinzas e promessas vãs a cada ciclo político, a viver de medidas avulso lançadas todos os verões sob pressão mediática! Exigimos que se olhe para este território com a dignidade que ele merece, que se ouça quem cá vive. Que se respeite quem decidiu aqui viver em segurança. É tempo de exigirmos um verdadeiro e efetivo pacto de regime para a floresta e para o nosso interior. Um compromisso a longo prazo, que não seja refém de ciclos partidários, que una governo, partidos, autarcas, academia, especialistas e comunidade, assente numa gestão sustentável e participada do território, numa revitalização económica e social centrada em novas formas de aproveitamento da floresta e numa adaptação às alterações climáticas, com medidas robustas e integradas que preparem o território para os fenómenos extremos cada vez mais frequentes. A nossa Serra da Estrela é natureza, é casa, é memória, é sustento, é vida, é futuro! E o nosso futuro não pode continuar a arder!
Texto de Joana Viveiro Pedro Pereira Cristina Costa Coordenação, Movimento Estrela Viva
Texto de Inês Laranjinha (Neurologista na ULS Santo António), em representação da Sociedade Portuguesa do AVC
A afasia impacta a comunicação de milhões de pessoas em todo o mundo e, infelizmente, é frequentemente negligenciada na sociedade portuguesa. Trata-se de uma perturbação adquirida da comunicação, resultante do comprometimento das modalidades de linguagem, devido a uma lesão cerebral focal. Pode afetar a expressão verbal oral, a compreensão da fala, a leitura, a escrita e até o uso de gestos. Importa sublinhar que a afasia não afeta a inteligência.
A afasia mascara a competência de quem a apresenta e impacta significativamente a sua vida social, interferindo nos seus relacionamentos e atividades diárias. Afeta a inclusão social, o acesso à informação e serviços, a igualdade de direitos e o bem-estar da pessoa, bem como dos seus familiares e amigos.
A principal causa da afasia são os acidentes vasculares cerebrais (AVC), sendo que cerca de um terço dos casos de AVC resultam em afasia aguda. Outras condições, como tumores cerebrais, traumatismos crânio-encefálicos e infeções, podem estar também na sua origem. Quando surge devido a doenças neurodegenerativas, designa-se Afasia Progressiva Primária.
Em Portugal, onde o AVC é uma das principais causas de morte e incapacidade, a afasia surge como um dos maiores desafios para os pacientes e suas famílias. Muitas vezes, esta condição persiste ao longo da vida, exigindo adaptação e apoio contínuo.
Compreender a afasia e as suas consequências no dia a dia é essencial para desenvolver intervenções centradas na pessoa. Estas intervenções devem responder às necessidades e objetivos individuais, promovendo mudanças significativas na vida da pessoa, mostrando-lhes que a vida é maior do que a afasia.
Neste contexto, a investigação sobre a afasia é crucial. Embora o conhecimento internacional seja essencial, não se pode assumir que as barreiras e necessidades das pessoas com afasia em Portugal sejam idênticas às de outros países. Assim, é fundamental desenvolver investigação nacional que reflita a realidade portuguesa.
O Instituto Português da Afasia (IPA) tem tido um papel central neste cenário, promovendo e apoiando a investigação nacional e o desenvolvimento de abordagens terapêuticas inovadoras. Está atualmente a desenvolver um projeto, em colaboração com a Unidade de AVC do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, que pretende determinar a prevalência da afasia em sobreviventes de AVC ocorrido em 2023 nos concelhos de Matosinhos, Vila do Conde e Póvoa de Varzim, bem como as necessidades das pessoas com afasia e dos seus familiares relativamente aos serviços de reabilitação. O IPA também tem contribuído para a implementação de programas de intervenção que beneficiam as pessoas com afasia, os seus familiares e a sociedade. O seu trabalho tem sido essencial para aumentar a consciencialização sobre a afasia e fomentar a inclusão social das pessoas com afasia no nosso país.
Em conclusão, a investigação sobre a afasia em Portugal deve ser vista como uma necessidade urgente. O progresso científico, aliado ao compromisso de instituições como o IPA, é fundamental para garantir que as pessoas com afasia vivam com dignidade e qualidade de vida. Portugal necessita de mais investimento, conhecimento e ação para enfrentar este desafio, e o IPA deve ser reconhecido como um farol nesta jornada de mudança.
Texto de Maria Assunção Matos (PhD, Terapeuta da Fala e Presidente da Direção IPA)
Esta é a época do ano em que muitas crianças começam a sua prática desportiva federada. Muitos sonhos legítimos acompanham essas crianças, e as expectativas, para alguns, são bastante elevadas.
Mas faz parte do processo. Todos temos o direito de sonhar e de lutar pelos nossos sonhos. Enquanto não chegarem a casa a dizer “Eu já não me divirto. Eu já não gosto”, está tudo bem. Só nessa altura é que rebobinamos o filme e nos damos conta do comportamento ao longo de anos e anos. Embora as famílias façam muitos sacrifícios e sejam em grande parte o suporte da prática desportiva de formação, a verdade é que a repetição de muitas atitudes inadequadas leva à saturação e ao abandono do desporto pelas crianças.
Um estudo recente sobre o abandono da prática desportiva, realizado pela Universidade Pablo de Olavide em Sevilha e pela Universidade de Huelva, concluiu que 40% dos adolescentes abandonam o desporto por cansaço. O abandono da atividade física é uma verdadeira epidemia que afeta o desporto, porque este é um dos espaços onde as crianças ainda podem brincar, experimentar, decidir, errar e aprender. E estamos a privá-las de o fazerem.
As causas desta elevada taxa de abandono são diversas, mas têm em comum uma conceção errada do desporto por parte dos pais e outros intervenientes na prática desportiva.
Na formação, exige-se demais, e isso é perigoso. Na Europa, as competições federadas de futebol começam aos cinco anos. Existem técnicos, clubes e instituições que dependem dos seus resultados. A especialização precoce, o excesso de competitividade, a imposição da vitória como único propósito e a pressão exercida por muitos pais e clubes fazem com que muitas crianças sofram de ansiedade e stress. Em consequência, muitas delas abandonam o desporto prematuramente.
Já não restam dúvidas de que quanto maiores são as expectativas dos pais, maiores são as probabilidades de frustração dos filhos. O desporto movimenta muito dinheiro: venda de merchandising, mensalidades nos clubes e academias, aluguer de espaços desportivos, torneios, agentes na procura de talentos... E as maiores vítimas são as crianças.
Aos pais, sugiro que se coloquem as seguintes questões: Porque é que não consigo ficar à margem do campo e simplesmente desfrutar do jogo, independentemente do resultado? Porque valorizo tanto a vitória e o sucesso? Não será melhor aprender com as consequências que essas atitudes têm?
O artigo 79.º da Constituição diz que todas as pessoas têm direito à cultura física e ao desporto e que o Estado tem de promover esta prática e prevenir a violência no desporto. Sendo as famílias o grande suporte da formação, cabe-lhes também a elas fomentar estes valores.
Levar e buscar os filhos aos treinos, acompanhar os jogos e estar sempre atento ao comportamento do filho em campo fazem parte da rotina de um pai ou uma mãe de atleta.
Todos temos a convicção de que o envolvimento parental positivo desempenha um papel muito importante na vida desportiva das crianças e dos jovens. O suporte familiar está relacionado com o aumento da confiança dos atletas e até mesmo com a sua permanência na prática desportiva. No entanto, é comum observarmos um acompanhamento negativo por parte de alguns pais, que gritam e insultam constantemente. A pressão exercida fora do treino e da competição é massacrante e desmotivadora. Tais comportamentos levam-nos a refletir profundamente sobre os limites do acompanhamento que fazemos.
Os pais podem escolher se querem ser facilitadores ou obstáculos no desenvolvimento desportivo dos seus filhos. Facilitam quando contribuem e se disponibilizam para o crescimento e a evolução dos filhos, incentivando-os e respeitando as suas motivações, escolhas e momentos. Contudo, tornam-se obstáculos quando impõem pressões ou não os incentivam.
O início de mais uma época desportiva é o momento certo para uma autorreflexão sobre o seu comportamento e sobre as melhorias possíveis.
Muitos clubes já têm dificuldades em encontrar treinadores para as suas equipas. Se a estas dificuldades acrescentarmos a falta de árbitros e de dirigentes associativos, temos de repensar se não estaremos a afastar recursos humanos qualificados das funções, porque continuamos a não investir no mais importante: o comportamento!
A forma como, no final de um jogo, a primeira atitude é correr na direção da equipa de arbitragem revela muito sobre a cultura desportiva dos nossos agentes desportivos. Esta cena teatral, tão comum em Portugal, é quase sempre um ato de transferência de responsabilidade e de falta de compromisso da equipa perante um resultado negativo. Quando se trata de um comportamento pontual, podemos até aceitá-lo — todos temos um dia menos bom. Mas quando se torna um padrão já não é tolerável. Quando ganham, as equipas já não correm para o árbitro. Porque será? A verdade é que os melhores não se desgastam com o que vai além do jogo, focam-se nos aspetos que são da sua responsabilidade e que controlam e incentivam quem lideram.
Temos de ser exigentes com todos os agentes desportivos e respeitar a modalidade em que estamos inseridos. Estar constantemente a pôr tudo e todos em causa não é tratar bem a modalidade que nos apaixona e que, para muitos, é também uma profissão.
Existem muitas ações de formação para treinadores e dirigentes, mas continua a faltar um investimento na vertente comportamental. É esta que faz a diferença entre os excelentes e os outros, permitindo que se foquem na sua função.
Votos de uma excelente época desportiva.
Vitor Santos
Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto
CARLOS LOPES conquistou a medalha de ouro há 40 anos
Onde estavas na madrugada de 12 agosto de 1984?
– "Estava na praia de Mira". Estas foram, provavelmente, as primeiras férias em que fui sem os meus pais. Acampei no Parque de Campismo da FAOJ e tive o meu primeiro grande amor de verão. Tudo muito anos 80. A década que mudou o mundo.
Comemoram-se este ano os 40 anos da medalha de ouro de Carlos Lopes nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. A primeira medalha de ouro de sempre para o país numa olimpíada, após vencer a prova da maratona. A competição decorreu à tarde nos EUA, noite em Portugal. Agosto era mês de praia e Mira era um destino que nós, jovens do interior, procurávamos por ser perto, de acesso não muito difícil e mais barato por haver muita oferta para campismo. A montagem da tenda naquele dia já foi um filme e tudo o resto entrou na história.
Mas voltemos a Carlos Lopes e ao nervosismo que nessa noite se apoderou de nós em frente a uma TV a preto e branco, de uma família desconhecida que nos abriu a janela. Foi um momento marcante! Em Viseu, soube que houve festa logo no momento, mas pelos lados de Mira só mesmo alguns noctívagos se congratulavam e estavam incrédulos com este feito.
Nessa madrugada de agosto, recordo que já com os bares fechados nos encostámos à janela aberta da tal família desconhecida e ali, com a sua autorização, ficámos a ver a corrida. Eu era de Viseu e logo fiz questão de puxar pelos galões: ele é da minha cidade!
A verdade é que foi uma proeza incrível. Uma madrugada icónica para Portugal: 12 de agosto de 1984. Um dos dias portugueses mais longos. Temperatura elevada, dizia o comentador, e quando, ao 38º quilómetro, desferiu o ataque, na corrida para o sonho, 200 metros de avanço, a entrada, firme, sorriso ligeiro no rosto, já nós não contínhamos a alegria e a emoção daquele momento. Faltavam poucos metros para assistirmos a história em direto.
Os holofotes de todo o mundo estavam no viseense Carlos Lopes. Eram 03h10 da madrugada em Portugal quando explodimos de contentamento e orgulho. O campeão torna-se herói, muito por si mesmo. Mas era o nosso herói.
Aos 37 anos, o Trambelo, após mais de 42 quilómetros, com uma temperatura de 30 graus, entra sozinho no Los Angeles Memorial Coliseum, acenando e quase desfilando como se não tivesse já 40 quilómetros nas pernas! A ovação no estádio era audível, mais de 90 mil pessoas, para o homem de ouro da maratona – a bandeira de Portugal no topo com a melhor marca olímpica de sempre.
Toda a história à volta da participação de Carlos Lopes nos Jogos Olímpicos de 1984 dava um excelente filme. Pouco antes da viagem para os EUA, Carlos Lopes foi atropelado por um carro quando treinava. Podia ter sido um episódio de uma tragédia. Treinava numa estrada, em Lisboa, de súbito o embate… "senti-me no ar, aos piparotes, caí e... levei algum tempo a levantar-me com medo de pensar que já não iria a Los Angeles. Ergui-me e a primeira coisa que fiz foi tentar correr. Corri e pensei para mim que se correra, então a medalha de ouro da maratona continuava à minha espera". Mente de campeão.
Carlos Lopes não ficou na Aldeia Olímpica, mas num hotel que a Nike alugara para os seus atletas mais prestigiados: Carl Lewis, Alberto Salazar e Carlos Lopes.
Meses antes, mais propriamente em março, Carlos Lopes tinha vencido os Campeonatos Nacionais de Corta-Mato, realizados em Viseu, berço deste campeão. Já nesse momento a admiração por Carlos Lopes era enorme e vê-lo a correr ao vivo era um frenesim.
Os tempos eram outros e as condições em que os atletas se preparavam não têm qualquer comparação com os dias hoje. Nos primeiros tempos, no Sporting, Carlos Lopes ainda ponderou regressar a Vildemoínhos. Não era fácil para um jovem migrar para Lisboa. Mas a mente de campeão levou-o a outra opção: não vou regressar e vou triunfar aqui!
E foi campeão do Mundo de Corta-Mato em 1976. O L'Équipe escreveu: "filho de um pobre camponês de Viseu e exercendo a honesta, mas obscura, profissão de empregado bancário… indiferente, soberbo, atleta de busto ligeiro e pernas de puro-sangue. Carlos Lopes parecia um cavaleiro solitário, tendo inscrito na fronte a certeza da sua superioridade". Nos Jogos Olímpicos de Montreal (Canadá), foi medalha de prata nos 10 mil metros.
Mas foi na madrugada do dia 12 de agosto de 1984, em que mais de 200 milhões de pessoas viram o seu triunfo, em direto pela televisão, que se fez história. Carlos Lopes fez mais pelo país numa hora que toda a propaganda existente até à altura.
Carlos Lopes e Joaquim Agostinho eram, e são, as minhas referências nos valores do desporto. A tenacidade de que hoje tanto se fala estava lá toda. A capacidade de adaptação, de lidar com a pressão, de ultrapassar a dor, de suportar as alterações climatéricas… São dois exemplos de superação, dois casos sérios de longevidade e de mente campeã.
É muito difícil explicar aos jovens de hoje estes feitos desportivos e fazê-los compreender as condições e o contexto em que eram alcançados. Mas temos de ter memória e gratidão. Os nossos heróis merecem.
Obrigado, Carlos Lopes!
Vítor Santos (Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto)
O cérebro é a caixa-negra do nosso organismo. Vê, sente e regista tudo, a toda a hora e em qualquer lugar. Todas as nossas experiências e vivências deixam uma marca indelével neste órgão que sofre em surdina. Todos os excessos – na dieta, no tabaco e no álcool – e todos os defeitos – de atividade física, estímulo cognitivo, sono e interação social – são como areia na engrenagem que vai desgastando aos poucos a complexa máquina que é o cérebro. Deste efeito cumulativo resultam as doenças do cérebro que, em grande parte, são o corolário de vários erros sistemáticos que vamos cometendo. O sal que colocamos a mais na nossa comida, a tablete de chocolate que era só um quadradinho, o copo de vinho que afinal são vários ao almoço e jantar, o exercício físico que começa amanhã, o sono que vai ser reposto ao fim-de-semana, os medicamentos para a tensão alta que só são tomados na véspera da consulta. O cérebro não cai nestas mentiras e cobra-nos, com juros muito elevados e sob a forma de doenças graves (algumas incuráveis), todos os empréstimos de saúde que lhe fomos pedindo ao longo de décadas.
Hoje, dia 22 de julho, celebramos o Dia Mundial do Cérebro, precisamente com o tema “Brain health and prevention: protecting our future”. Importa, por isto mesmo, lembrar que a nossa saúde é tão somente aquela a que o nosso cérebro nos permitir. Este órgão é o nosso único garante de individualidade, autonomia e dignidade. É ele que nos torna únicos. Preservá-lo através de uma vida saudável é proteger o nosso futuro e o futuro de quem mais amamos. Porque, se não nos cuidarmos no presente, sobrará para alguém no futuro.
Para mudarmos de vida e protegermos o nosso cérebro e o nosso futuro, ontem já era tarde. Mas nunca é tarde demais.
Dr. João André Sousa
Neurologista, Unidade Local de Saúde de Coimbra
Membro Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral (SPAVC)
Nos dias de hoje, cada vez mais são as mães a acompanharem os filhos na prática desportiva. Nos jogos essa presença é partilhada com o pai, mas nas atividades propostas pelo clube fora do campo (ações de formação, festas, manifestações de solidariedade, etc.) são as mães quem marcam a sua presença.
Nos jogos é normal assistirmos a uma mãe dar um grito e levar as mãos à cabeça quando o filho sofre falta. A sua reação é instantânea. Muitas vezes correm imediatamente para a linha lateral tentando comunicar com o filho. Porém, não é necessário nem desejável que o façam.
Naquele momento, ele tem a seu lado as pessoas que têm o dever e o direito de intervir: o massagista, o fisioterapeuta e o árbitro. Nem o treinador pode entrar no campo. Por isso, qualquer tentativa de intervenção dos familiares, neste caso da mãe, só faz ruído e transmite para dentro do campo uma fragilidade que o atleta (que é o seu filho) não tem.
Não subestime os seus filhos!
Eles são bem mais fortes do que pensa!
É seguro que o sentimento de mãe é ilimitado e este comportamento é compreensível dentro de certos limites, mas a criança/jovem que está em campo irá, em centenas de vozes que vêm da bancada, sempre reconhecer a da sua mãe. Dependendo de cada criança/jovem, porque cada indivíduo tem sensibilidades diferentes, estes podem ficar envergonhados e condicionados quando percebem que são objeto de uma angústia descontrolada. Um atleta reconhece-se pela sua tenacidade. Ora, esta só é alcançada se ele tiver autonomia e espaço para a construir.
Às mães, apelo a que não percam essa angústia, esse instinto protetor, mas que aprendam a proteger sem exagerar, transformando o vosso comportamento num motivo de orgulho para os vossos filhos. No final do treino ou do jogo, quando lhe derem um beijo, transmitam-lhe o quanto estão orgulhosas: "Estou muito orgulhosa de ti", "És forte meu filho" ou "Os atletas são assim como tu: valentes". Vão ver que ele já nem se lembra da dor que sentiu no jogo.
As mães colocam sempre mais a tónica na felicidade dos filhos, e bem, em vez de a colocar nos resultados imediatos. Sorriem por cada momento vivido pelo seu filho e incentivam-no a aprender com os erros e a saborear as conquistas. As mães são, entre os adultos, a melhor das fações.
As mães são de uma sensibilidade extrema e temos muito a ganhar com esse sentimento materno. Através delas podemos promover, mais e melhor, a ética e o fair play no desporto, que só trazem benefícios tanto para as crianças quanto para a sociedade como um todo. Na realidade, entendo que são as mães o principal veículo de transmissão dos valores da prática desportiva às crianças. Estes valores contribuem para o desenvolvimento de caráter e estimulam a disciplina, o trabalho em equipa, a resiliência e o respeito. Além disso, fomentam a integração social, proporcionando oportunidades de interação entre pessoas de diferentes origens e culturas.
Queridas mães, desfrutem dos jogos! Desejem que os vossos filhos sejam felizes no desporto não só quando tiverem a idade adulta, mas em todos os momentos, incluindo no presente. Usufruam de cada etapa. De cada momento. O futuro será o que tiver de ser, mas que seja construído sobre uma escadaria de experiências felizes, divertidas e enriquecedoras.
Obrigado, mãe! Todos os desportistas têm muito presente esta gratidão.
Vitor Santos
Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto
Maio é o mês da Europa, assinalado em todos os países da União para celebrar a Declaração de Robert Schuman, então Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, proferida a 9 de maio de 1950. É extraordinário pensar que cinco anos antes deste famoso discurso, a Europa estava ainda submersa na sua mais violenta guerra fratricida. Pensar que passado tão pouco tempo da Segunda Guerra Mundial, um ministro francês estava a estender a mão à Alemanha e a outros países que, ao longo de séculos e incontáveis batalhas, estiveram em lados opostos da barricada. Uma «solidariedade de facto» foram as palavras escolhidas por Robert Schuman nesta sua proposta de uma Europa «organizada e dinâmica», imprescindível para a «manutenção de relações pacíficas».
Desde então, o Dia da Europa simboliza a celebração desta paz, união, e do compromisso real com os valores que moldam o projeto europeu: o respeito pela dignidade humana, liberdade, democracia, e a promoção da prosperidade económica no âmbito de um Estado Social. Celebramos a União Europeia, garantindo que os seus valores continuam a ser colocados em primeiro lugar, refletindo sobre todo o caminho até hoje percorrido, mas também o que queremos para a nossa Europa no futuro.
Desde esse longínquo ano de 1950 que a União Europeia tem contribuído para a redução de disparidades e para a melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas, com a solidariedade entre países como pilar estruturante. Basta recordarmos o passado recente e a forma como superámos uma pandemia mundial, onde a União Europeia garantiu o acesso rápido de vacinas em condições de igualdade a todos os europeus. Onde graças aos fundos do «NextGenerationEU», conhecido entre nós como o PRR, aumentámos o investimento nas renováveis, no apoio social, e na digitalização.
Uma solidariedade que se estende além fronteiras: a União Europeia é um dos principais atores mundiais em ajuda humanitária e tem assumido um papel imprescindível na resposta à terrível situação humanitária que se vive em Gaza; ao mesmo tempo, enquanto a liberdade, a autodeterminação e a própria democracia continuam a ser ameaçadas pela brutal guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, a União Europeia permanece ao lado do povo ucraniano e tem dado um apoio sem precedentes, acolhendo as famílias que fogem da guerra, apoiando as empresas e a produção agrícola do país, e fornecendo armamento e equipamento de proteção aos soldados ucranianos.
Portugal é um exemplo do progresso europeu em direção a uma sociedade mais próspera e justa. A adesão portuguesa à União Europeia trouxe avanços económicos, fundos comunitários, acordos comerciais e padrões ambientais. Contribuiu também para o reforço do compromisso com os princípios democráticos, direitos humanos e participação cívica. Valores cuja celebração e defesa é ainda mais importante quando assinalamos os 50 anos do 25 de Abril.
Estas conquistas não devem ser dadas como adquiridas. As eleições europeias, a 9 de junho, são uma oportunidade para reafirmar o nosso compromisso com os valores que nos unem como europeus e para participar ativamente no futuro da construção europeia. Portugal tem tido baixas taxas de participação, mas este ano não há desculpas: podemos inscrever-nos no voto antecipado (na semana anterior) e pela primeira vez podemos votar em qualquer ponto do país e fora dele (nos consulados). Ou seja, mesmo que nesse fim-de-semana esteja fora, pode dirigir-se a qualquer mesa de voto mais próxima e exercer o nosso dever cívico sem necessidade de requisição prévia de voto em mobilidade.
Tal como Robert Schuman declarou, «a Europa não se construirá de uma só vez». Cabe a todos nós continuarmos a sua construção, votando no próximo dia 9 e trabalhando em união nos dias e anos seguintes, para que juntos sejamos mais fortes.
Se o atleta, o treinador, o pai e todos os adeptos falam em jogar, em participar no jogo, porque o transformam logo na palavra ganhar?! Jogar é fantástico. Ganhar é uma consequência do desenrolar do jogo.
Jurgen Klopp elogiou recentemente Portugal pela sua formação. Pelo número de atletas de alto rendimento que estão nas melhores equipas do mundo. No entanto, são um número residual para aqueles que começam na base. E é na base que devemos trabalhar melhor. Não estamos a formar jogadores aos 8, 10 ou 12 anos! O desenvolvimento integral da criança é um dos assuntos mais importantes quando o tema é desporto. Ou seja, abrange a condição física, o potencial técnico, a capacidade ou competência mental e intelectual, entre outras dimensões que integram o crescimento humano.
Por isso, porque o interesse superior da criança deve vir sempre em primeiro lugar, há que mudar atitudes e comportamentos. A nível familiar, a preocupação com o sucesso dos filhos inicia-se cada vez mais cedo, sendo responsável pela criação de expetativas e pressões que deixam pouco espaço para a brincadeira. A cultura parental é de intromissão e busca do sucesso imediato. O resultado é sempre mais importante que o processo. Pois deve ser precisamente o inverso!
A nível dos clubes, as suas estruturas e os seus responsáveis devem instituir um espírito desportivo. No jogo, a vitória e a derrota estão sempre presentes. Mas é importante que sejam relegadas para um plano secundário de modo a promover o prazer de jogar, a saúde, o divertimento e a amizade.
Nós estamos, no mínimo, a formar adeptos. Melhores adeptos. No processo de formação, é indiferente se alguns vão ser jogadores, treinadores, jornalistas, médicos, motoristas, etc. Serão sempre melhores adeptos e profissionais com formação desportiva integral. Esta é a única certeza e é o princípio que nos deve guiar.
“A ELITE DA ELITE: jogadores que têm contrato de profissionais entre os 16 e 20 anos, 67% deles NÃO JOGAM FUTEBOL aos 21 anos”, Arséne Wenger (Chefe global de desenvolvimento de futebol da FIFA, janeiro de 2024).
Não podemos aceitar que os pais retirem os filhos do campo por estes não estarem a jogar a titular (o que quer que isto queira dizer), que agridam treinadores, que falem do que não sabem porque pensam que sabem (os pais resultadistas), que usem e provoquem violência verbal (ou outra) no seu meio. Comportamentos como gritar e utilizar palavrões com árbitros, insultar treinadores e atletas, pressionar os filhos criam um ambiente hostil e conflituoso que influencia o desempenho desportivo e acaba por resultar no abandono da prática da modalidade.
Que filho gosta de ver o pai ou a mãe a fazer figuras tristes? De ser motivo de chacota pelo seu comportamento? É embaraçoso para o filho, que além da vergonha própria ainda se sujeita a ser alvo de troça, nos balneários, pelo comportamento abusivo do seu progenitor.
A proteção dos filhos é um dever dos pais. No desporto como em qualquer outra atividade ou situação da vida. Quando permitimos que os nossos filhos se dediquem a uma atividade tóxica em que a violência, no mínimo verbal, é aceite com normalidade, estamos a contaminar todo o ambiente em que vivem.
A prevenção tem de ser sempre a nossa prioridade. No entanto, a punibilidade torna- se uma ferramenta necessária e urgente na intervenção. A Autoridade para a Prevenção e Combate à Violência no Desporto (APCVD) tem trabalho feito, que deve ser ainda mais divulgado. O Secretário de Estado da Juventude e Desporto admitiu, recentemente, que pondera pôr a Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) a atuar! Os nossos comportamentos têm de ter consequências. Os clubes têm uma tarefa complicada pela frente pois dependem muito dos pais e sujeitam-se a perder muito por causa deles. Também têm de sensibilizar os seus próprios responsáveis para esta matéria, especialmente os treinadores. É importante instituírem regras e compromissos desde o início e não permitirem desvios comportamentais. Para os pais, porque não criarem “Cartas de Compromisso” que todos os pais têm de assinar antes da inscrição do filho? Ou organizarem sessões de esclarecimento? Ou estabelecerem um sistema de cartões (branco, amarelo e vermelho) para os pais, recompensando ou penalizando os seus comportamentos – e atribuírem prémios no final da época? Em caso de reincidência persistente no abuso comportamental, o clube deve considerar a medida de último recurso de recusar o atleta.
De uma vez por todas, temos de nos convencer de que nenhuma criança de 8 ou 10 anos, nenhum jovem de 14 ou 16 é um futebolista profissional! Pode ser um potencial futebolista. Mas até à última etapa, que é quase sempre a transição do futebol jovem para o sénior, tudo pode acontecer.
Clubes, Pais & Filhos Juntos, É O MELHOR.
Vítor Santos
Embaixador do PNED
O futebol vive momentos de enorme mudança com a criação de competições e o aumento do número de jogos. A globalização chegou ao futebol e todos os dias temos jogos e mais jogos na televisão.
As federações nacionais e as associações regionais têm o desafio enorme pela frente de não permitirem que o futebol, na sua verdadeira essência, acabe. A importância das competições domésticas está a diminuir.
Os clubes vão ter de repensar o seu posicionamento. Terão de optar entre serem "apenas" laboratórios para formar atletas ou então polos dinamizadores de atividade social na sua aldeia, vila ou cidade através do futebol.
Portugal é um país estranho e com uma Liga Profissional condicionada por três clubes. Não existe respeito pelo adepto que vai ao estádio com os horários em que se realizam os jogos. Quem gosta de futebol está a abdicar do estádio em detrimento da televisão. Os estádios têm poucos adeptos porque é impossível a um farense deslocar-se a Chaves a uma segunda-feira à
noite! O próprio flaviense tem de se superar para, com o gelo transmontano, ir a uma noite de semana para o estádio!
A convicção que fica é de que, cada vez mais, estas decisões são tomadas em escritórios e não no país real. Que haja clubes sem dinheiro para pagar ordenados, em ligas profissionais, não parece ser um problema para quem gere a atividade. Já é uma tradição que herdámos do século passado. A verdade desportiva está em causa.
Só a ética no desporto de formação pode resolver estes problemas com uma formação integral dos desportistas. Podem não vir a ser jogadores de futebol, mas serão certamente melhores dirigentes, jornalistas, treinadores e, acima de tudo, serão melhores adeptos.
A ética desportiva diz-nos como se devem comportar todos aqueles que estão envolvidos na prática desportiva. A ética desportiva ajuda a prevenir a violência, a corrupção, a dopagem, o racismo, a discriminação e a xenofobia. Também promove a saúde física, o desenvolvimento das competências pessoais, interpessoais, sociais e cívicas, o respeito pelos outros e nós próprios, o respeito pelas regras e pelo bem coletivo, o respeito pela diversidade e a vontade de sermos bons anfitriões. A tudo isto temos de associar a modernidade, a economia local e o contacto social.
As confederações americana e africana precisam de palcos mediáticos e os clubes europeus ambicionam dinheiro. O Mundial de clubes serve estas causa em simultâneo. A Superliga serve os magnatas dos clubes. O futuro do futebol está a ser moldado por forças económicas e, à medida que enfrentamos essas mudanças, é crucial equilibrar os interesses comerciais com a preservação da verdadeira essência do desporto, mantendo-o enraizado nas comunidades que o tornam tão especial. Estas duas vertentes são complementares, mas as competições internas estão em desvantagem e os clubes vão ter de se reinventar e unir.
Para a imprensa local, uma parceria com os clubes de futebol dos campeonatos distritais pode ser uma excelente oportunidade para ambas as partes. O jornalismo desportivo nacional já não atrai leitores e os mais jovens nem querem saber. Se eles e os seus clubes passarem a ser a notícia, o cenário altera-se. Urge valorizar as competições locais.
A refletir.
Vitor Santos (Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto)
Em todo o processo formativo dos jovens jogadores, para além dos conteúdos, conhecimento ou comportamento, é fundamental a relação que se estabelece entre o atleta e o treinador.
Na verdade, o treinador necessita de fomentar essa relação e o jovem jogador necessita de acreditar na mensagem do seu treinador.
Todos gostamos de ganhar. Como poderia deixar de ser? Mas as crianças e os jovens gostam de aprender. Aprender a fazer as coisas bem, para serem melhores quando forem grandes.
O processo é de complexidade crescente. Não podemos querer que aos nove anos se proceda como aos 17.
Sabemos que não é fácil dar as mesmas oportunidades a todos. Os dirigentes são exigentes. Esperam vitórias, para ontem, dos treinadores, o que é difícil de conciliar com o desejo de cada um dos atletas, que é entrar e jogar.
É injusto e desigual um desporto que só se afirma na glória de uns (os vencedores) e na desvalorização de outros (os vencidos). Quando os motivos principais que levam os mais jovens a fazerem desporto deveriam ser bem outros: aprender, saber fazer, desenvolver capacidades, saber ser e saber estar. Preparando o amanhã.
Em vez de se encorajar para a vitória, esta é tomada como a condição de tudo o mais. Como o objetivo absoluto. Criam-se as circunstâncias para que seja atingida à custa de outros valores e motivos de participação, que não são estimulados: o esforço, o empenhamento, a alegria e o prazer. Despreza-se a importância de fazer coisas bem feitas, de aprender coisas novas (as habilidades, as técnicas, as formas de entender o jogo e de o jogar), de fazer outros amigos e de ter novos companheiros.
Muitos sentem-se fora deste processo, excluídos. Por uma lógica de desporto que só valoriza a vitória, que faz da competição o centro de tudo, o foco de todo o trabalho, da preparação e que cria conflitos. Gostar de competir, gostar de ganhar tem o seu lugar, mas o desporto não se limita a esta ideia, estes princípios, estes valores. Ou melhor, à ausência deles.
Deixem as crianças e os adolescentes aprenderem a ser adultos, devagar. Deem-lhes espaço, autonomia, tempo e todas as condições que lhes permitam ser, estar, descobrir e experimentar. Jogando. Sem pressas de serem grandes num mundo tornado hostil. Jovens que já não têm tempo. Não repliquem os modelos dos adultos nos treinos e competições de iniciação e formação. Dizem que os bons treinadores são os que chegam às vitórias. Não aqueles que se empenham em criar uma escola, uma vivência mais humana do desporto, em que os jogadores, mais que o objeto, são o centro da atividade.
Esta deve ser a primeira e a última razão de ser do desporto. E por esse facto, os treinadores são os garantes de um desporto novo. Um novo desporto, no futuro, renovado, mais à nossa dimensão, mais humano. Um novo desporto justificado não apenas pela transmissão de uma cultura, o seu desenvolvimento, a busca de resultados e o progresso, mas também, e sobretudo, por valores pedagógicos e morais. Os mesmos valores que estiveram no ato da criação do desporto que temos. Agora menos visíveis, a exigir reflexão…
Porque são os “treinadores do ano” escolhidos entre os mais bem sucedidos, os que obtêm resultados? E não entre aqueles que constituem modelos de referência, de responsabilidade pedagógica e moral? Porque é que o sucesso como treinador de jovens (os critérios que determinam a avaliação de competência) depende mais dos resultados obtidos no presente e menos do número de desportistas que ajudam a formar e que atingem os estágios mais avançados da preparação desportiva, no desporto de alto nível?
As crianças e os jovens, em vez de serem encorajados a fazerem o seu melhor e serem compensados por o terem feito, são excluídos por não terem capacidades para o imediato. São excluídos de participarem naquilo que mais gostam. E acabam por abdicar do que os faz estar no desporto, numa equipa. Como poder só treinar, sem jogar? Como poder jogar só para o resultado? Qual o interesse, o sentido, de um desporto como este (se é que de desporto se trata)?
A vitória é o importante, e só têm reconhecimento os que dela participam. Está tudo errado quando assim é. Se a isto juntarmos a interferência dos pais durante os treinos e jogos (que é por norma bem mais negativa que produtiva), é assim o tipo de competição que temos nestes escalões e que está a matá-los.
Não admira que os comportamentos destas crianças e destes jovens sejam desviantes e agressivos.
Não compliquem, deixem as crianças fazer aquilo de que eles gostam. Deixem-nas jogar!
Feliz Natal.
Vítor Santos
Embaixador do PNED
O futebol não é apenas um golo espetacular, uma finta excelente ou uma defesa sensacional de um guarda-redes. O futebol é também a participação do adepto, a inclusão da comunidade e o cheiro da relva ou de um pelado molhado. O futebol é muito mais do que a perceção que se tem do jogo.
Participar num jogo de futebol tem de ser sempre uma vivência fantástica para os intervenientes, quer estejam dentro ou fora das quatro linhas.
O futebol é muito mais do que se vê. É uma experiência que marca qualquer criança. Uma memória que transcende a imagem e que perdura no tempo. É esta magia que nos move na paixão pelo jogo. É esta magia que temos de preservar.
A Autoridade para a Prevenção e Combate à Violência (APCVD) organizou em Viseu um notável Congresso que, para além de promover a segurança nos espetáculos desportivos, ressaltou a partilha de excelentes ideias e práticas que temos na hospitalidade. Foquemo-nos nesta. É de nos fazer pensar. Porque não sabemos nós o que de excelência temos?! Porque não existe jornalismo desportivo que faça reportagens sobre estes clubes, empresas, ações, etc.? Sobre este evento?!
O adepto esteve no centro de um painel em que foram debatidos casos práticos como o Ranking Puro Futebol - Liga 3 (FPF), Campanha de sensibilização “Sintam-se em casa”, Audiodescrição - relato inclusivo, entre outros.
O adepto de hoje quer uma experiência positiva. Não quer ir para um jogo conflituoso, perder um tempo interminável para estacionar, estar à chuva, não poder usufruir do bar por ser tudo muito vagaroso, etc., etc. E já existem respostas para estas situações que visam proporcionar ao adepto uma experiência feliz.
O Ranking Puro Futebol – Liga 3 (FPF) tem sido uma pedrada no charco. Cândido Costa é o embaixador desta liga e confessou-se apaixonado por ela. A verdade é que a Liga 3 parece uma ilha ali no meio das competições seniores.
O Caldas Sport Clube (CSC) é uma referência na arte de bem receber. Se, no distrito de Viseu, o Nespereira FC marca a diferença pela positiva e tem muito a ensinar a quem se diz grande, o CSC é já um marco no futebol nacional pela sua responsabilidade social e por se destacar ao longo da época desportiva nos valores do desportivismo, fairplay, respeito e paixão pelo jogo.
Orgulho é o que se vê nos olhos de quem veste as cores deste clube nas mais diversas funções.
A audiodescrição já existe em alguns jogos. A partilha do Pedro Lima, adepto invisual do F. C. Porto, foi especial. A energia do poder do desporto. A paixão pelo futebol. Estava lá tudo.
O Pedro mostrou-nos a sua força e a força do futebol. Muitos de nós não sabemos, nem queremos saber dos “Pedros”. Felizmente, hoje já existe audiodescrição em jogos e são estas vitórias que contam verdadeiramente.
E quanto à inclusão de adeptos com daltonismo? É verdade que já temos empresas a trabalhar com os clubes para proporcionar uma melhor leitura do espetáculo desportivo a adeptos daltónicos. Os casos de daltonismo não são raros. Em Portugal estima-se que 500 mil homens e 27 mil mulheres sofram dessa condição. Tê-los em conta é fazer com que o desporto e os seus valores sejam de todos e para todos.
Parabéns à APCVD por organizar este excelente congresso internacional em Viseu. Foi um evento em que se partilhou o que de melhor se faz. Um evento que valorizou o Desporto.
Vitor Santos
Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto
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