"Caminho do Céu", de Rita Cabaço, chega, esta sexta-feira (6 de novembro), ao Teatro Viriato numa reflexão sobre a responsabilidade individual e a repetição da História. Na estreia na encenação, Rita Cabaço parte de um episódio do Holocausto para questionar o comportamento humano, a manipulação da realidade e a capacidade de ver e agir perante o que acontece à volta. No Teatro Viriato, às 21h00, "Caminho do Céu" ganha uma configuração própria, com a participação de pessoas da comunidade de Viseu.
A peça, escrita pelo dramaturgo espanhol Juan Mayorga, tem como ponto de partida a recriação, no campo de concentração de Terezín. Entre a realidade e a ficção, a peça expõe os mecanismos de manipulação e cumplicidade através dos quais a mentira se constrói e o horror se torna invisível, propondo uma reflexão sobre a responsabilidade individual, a repetição dos comportamentos humanos e a forma como, perante a realidade, podemos saber o que está a acontecer e, ainda assim, não agir.
"Eu, na verdade, não tinha particular interesse em debruçar-me apenas sobre essa fase da nossa História. A minha ideia foi partir daí [do Holocausto] para poder falar um bocadinho sobre a transversalidade, a ciclicidade da História. É mais sobre o comportamento humano, a forma como ele se repete e como os mecanismos para chegar a estes lugares sombrios se vão repetindo também, apesar de toda a informação que temos. Interessa-me pensar este texto aos olhos de hoje, como ponto de partida para uma reflexão e um debate aberto sobre aquilo que sabemos do passado, mas também do nosso presente", explica a encenadora.
O projeto nasce da necessidade de encontrar uma forma de refletir artisticamente sobre os conflitos e as inquietações do presente, num processo que a própria descreve como exigente e transformador. Mais do que transmitir uma mensagem fechada, a encenadora procura construir um "espelho da humanidade": um espaço onde o público possa reconhecer comportamentos, confrontar-se com diferentes perspetivas e construir as suas próprias perguntas. Em Viseu, esse espelho ganha uma dimensão particular através da participação de pessoas da comunidade sem experiência profissional em teatro.
Sem impor uma interpretação única ou uma resposta definitiva, "Caminho do Céu" convida o público a observar os mecanismos da manipulação, a normalização do absurdo e a fragilidade da responsabilidade individual perante o sofrimento alheio. Uma peça que parte de uma página sombria da História para nos devolver uma pergunta essencial: o que fazemos perante aquilo que sabemos que está a acontecer?


